domingo, 15 de novembro de 2009

"O ciume"

O ciúme

Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia

Tudo esbarra embriagado de seu lume

Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia

Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta

E se viu ferido justo na garganta

Quem nem alegre nem triste nem poeta

Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas

De onde o oculto do mistério se escondeu

Sei que o levas todo em ti, não me ensinas

E eu sou só, eu só, eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde

Petrolina, nem chegaste a perceber

Mas, na voz que canta tudo ainda arde

Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala

Tantas almas esticadas no curtume

Sobre toda estrada, sobre toda sala

Paira, monstruosa, a sombra do ciúme


O ciume (Caetano Veloso) - Barbara Casini Quartet & Max Aloe(2003)
clique aqui!

O ciume (Caetano Veloso) - Na Ozzetti & Andre Mehmari(2005)

O ciume (Caetano Veloso) - Gal Costa & Caetano Veloso

video


A CANÇÃO CONTADA

"O ciúme no ponto negro de Caetano"


Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia

Tudo esbarra embriagado de seu lume

Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia

Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

Existem canções, ou poesias, ou imagens que são paradoxais: explodem no coração tão universais como se todos compreendessem igual, ao mesmo tempo que trazem experiências pessoais que nem o compositor imaginou. Feito desde a primeira vez em que ouvi a música “O Ciúme” de Caetano Velloso. Seguramente a Bahia litorânea de Caetano não era a minha, mas Juazeiro e Petrolina eram, mesmo sendo esta pernambucana. Como os amores que atordoaram minha incompletude em plena Ilha do Fogo. Ou na Praça da Matriz, na Rua da Apolo, um acarajé no fim de tarde.

O ciúme lançou sua flecha preta
E acertou no meio exato da garganta
Quem nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta
Velho Chico vens de Minas

E a primeira vez que a ouvi ou pelo menos prestei atenção na sua letra foi pela voz de Maria Bethania em disco não tão remoto no tempo (clique aqui! ). Mas o ciúme veio de longe, pelo leito do São Francisco desde as alterosas do sudeste, no planalto da Serra da Canastra.

De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde

O ciúme, gêiser inesperado de águas geladas, cortantes como navalha de congelador. Misterioso como as serras de Minas, ensimesmadas numa cadeia de centenas de quilômetros, tão volumosas como o próprio oculto do ciúme. Tão exuberantes como o espontâneo do amor.

Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê
Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme

E Juazeiro me era um contínuo desde o curtume até a loja de couros. Camurças, solas, solados. Esticada película de um mundo em transformação, tão corrente como as águas do rio, mas tão permanentes como a ponte que ainda hoje é.

José do Vale Pinheiro Feitosa.

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