terça-feira, 9 de março de 2010

"Folhas secas"

Folhas secas

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando

Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade.


Folhas secas (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) - Andre Mehmari & Celio Barros(1998)
clique aqui!

Folhas secas (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) - Guilherme de Brito & Trio Madeira Brasil(2003)

Folhas secas (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) - Beth Carvalho & Nicolas Krassik ao vivo

video


A CANÇÃO CONTADA

Façamos um pequeno parêntese e escutemos o trecho de um samba de Nelson Cavaquinho. Chama-se “Folhas secas”:

Quando eu piso em folhas secas

Caídas de uma mangueira

Penso na minha escola

E nos poetas

Da minha estação primeira

Não sei quantas vezes

Subi o morro cantando

Sempre o sol me queimando

E assim vou me acabando

Ao pisar em folhas secas caídas de uma mangueira, folhas mortas, dispostas na terra, o poeta pensa na sua morada, na Mangueira. Ali, junto a terra, e resultado da mesma terra, encontram-se as folhas secas da mangueira. Ao pisa-las, o poeta pensa na sua morada, isto é, traz novamente a sua morada enquanto lugar de realização de sua poesia, de seu samba. Isto só foi possível porque as folhas secas estavam junto a terra. Somente junto a terra, comprimindo as folhas, é que o poeta convoca mais uma vez sua morada. Estando agregado a terra o poeta mais uma vez se faz poeta, invocando sua morada.

Mas ainda nos diz o poeta: “Subi o morro cantando / Sempre o sol me queimando”. Ao subir o morro cantando, declamando sua poesia, habitando poeticamente e construindo sua morada, o poeta é tomado pelo calor do sol. Queimando, curtindo a pele, suportando o calor: assim o poeta canta seu samba. Do céu vem o aceno dos deuses, através dos raios solares, que esturricam o homem, cortando-lhe a pele. Do céu também vêm as tempestades, que alagam as ruas e arrastam os casebres e barracos. E eis que a resposta do poeta frente ao divino é cantar seu samba, construindo sua morada. Cantar, para o sambista, é superar a dor proporcionada pelo apelo do divino (“Nossos barracos são castelos / Em nossa imaginação” !?). Rasgando o corpo, o divino nos impõe uma dificuldade, uma nova possibilidade. No entanto, o poeta recebe essa dificuldade como um presente, e tenta, no esforço de retribuir, nomear os deuses, para assim estar disposto novamente ao presente divino. Assim é o movimento de dar, receber e retribuir.

Extraído de O poeta e sua morada: notas de um samba de Nelson Cavaquinho”, de Carlos Augusto Santana Pereira

Abaixo uma entrevista dada por Beth Carvalho:

Foi a primeira que eu gravei dele. Inclusive é a que abre o disco e também tem mais um motivo: depois que gravei essa música, ele me deu um cavaquinho dele de presente. Até então essa música era inédita clique aqui!.

Agora, mais um texto:

Nos sambas essa relação de pertença a um lugar aparece de forma explícita, como no samba "Folhas secas", que é especial na obra do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito, seu parceiro, onde a morada é uma escola de samba, localizada em um morro específico, a Mangueira, que é o seu lugar onde a experiência da vida está ligada ao passado, ao presente e ao futuro.

“Quando piso em folhas secas

Caídas de uma mangueira

Penso na minha escola

E nos poetas da minha Estação Primeira

Não sei quantas vezes

Subi o morro cantando

Sempre o sol me queimando

E assim vou me acabando

Quando o tempo avisar

Que eu não posso mais cantar

Sei que vou sentir saudades

Ao lado do meu violão

Da minha mocidade.”

Aqui a morada é um lugar, uma comunidade que evoca, traz sentimentos, lembranças. Neste samba notamos que há a percepção da vida como um ciclo de eterno recomeços em meio às labutas diárias e encontros. As coisas são sinais; as aparências (folhas secas de uma mangueira lembrando a Escola de Samba símbolo do Brasil, por exemplo) revelam significados profundos, histórias, sentimentos, laços.

Por um lado este samba vai mostrar a realidade do sinal, a percepção dessas folhas que caem e que quando pisadas o autor vai tomando contato com as lembranças que fazem-no rememorar fatos da vida. É uma espécie de maravilhamento diante do real que vai gerando uma relação de pertença àquele lugar. Por outro lado, o samba apresenta uma visão que valoriza a sacralidade do lugar, onde a realidade é percebida como provedora.

Escrito por José Eduardo Ferreira Santos.


Prá finalizar, de lambuja mais duas gravações: com Raul de Barros(1974) clique aqui! e com Rosemary(2006) clique aqui!.


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