terça-feira, 9 de março de 2010

"Folhas secas"

Folhas secas

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando

Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade.


Folhas secas (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) - Andre Mehmari & Celio Barros(1998)
clique aqui!

Folhas secas (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) - Guilherme de Brito & Trio Madeira Brasil(2003)

Folhas secas (Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito) - Beth Carvalho & Nicolas Krassik ao vivo



A CANÇÃO CONTADA

Façamos um pequeno parêntese e escutemos o trecho de um samba de Nelson Cavaquinho. Chama-se “Folhas secas”:

Quando eu piso em folhas secas

Caídas de uma mangueira

Penso na minha escola

E nos poetas

Da minha estação primeira

Não sei quantas vezes

Subi o morro cantando

Sempre o sol me queimando

E assim vou me acabando

Ao pisar em folhas secas caídas de uma mangueira, folhas mortas, dispostas na terra, o poeta pensa na sua morada, na Mangueira. Ali, junto a terra, e resultado da mesma terra, encontram-se as folhas secas da mangueira. Ao pisa-las, o poeta pensa na sua morada, isto é, traz novamente a sua morada enquanto lugar de realização de sua poesia, de seu samba. Isto só foi possível porque as folhas secas estavam junto a terra. Somente junto a terra, comprimindo as folhas, é que o poeta convoca mais uma vez sua morada. Estando agregado a terra o poeta mais uma vez se faz poeta, invocando sua morada.

Mas ainda nos diz o poeta: “Subi o morro cantando / Sempre o sol me queimando”. Ao subir o morro cantando, declamando sua poesia, habitando poeticamente e construindo sua morada, o poeta é tomado pelo calor do sol. Queimando, curtindo a pele, suportando o calor: assim o poeta canta seu samba. Do céu vem o aceno dos deuses, através dos raios solares, que esturricam o homem, cortando-lhe a pele. Do céu também vêm as tempestades, que alagam as ruas e arrastam os casebres e barracos. E eis que a resposta do poeta frente ao divino é cantar seu samba, construindo sua morada. Cantar, para o sambista, é superar a dor proporcionada pelo apelo do divino (“Nossos barracos são castelos / Em nossa imaginação” !?). Rasgando o corpo, o divino nos impõe uma dificuldade, uma nova possibilidade. No entanto, o poeta recebe essa dificuldade como um presente, e tenta, no esforço de retribuir, nomear os deuses, para assim estar disposto novamente ao presente divino. Assim é o movimento de dar, receber e retribuir.

Extraído de O poeta e sua morada: notas de um samba de Nelson Cavaquinho”, de Carlos Augusto Santana Pereira

Abaixo uma entrevista dada por Beth Carvalho:

Foi a primeira que eu gravei dele. Inclusive é a que abre o disco e também tem mais um motivo: depois que gravei essa música, ele me deu um cavaquinho dele de presente. Até então essa música era inédita clique aqui!.

Agora, mais um texto:

Nos sambas essa relação de pertença a um lugar aparece de forma explícita, como no samba "Folhas secas", que é especial na obra do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito, seu parceiro, onde a morada é uma escola de samba, localizada em um morro específico, a Mangueira, que é o seu lugar onde a experiência da vida está ligada ao passado, ao presente e ao futuro.

“Quando piso em folhas secas

Caídas de uma mangueira

Penso na minha escola

E nos poetas da minha Estação Primeira

Não sei quantas vezes

Subi o morro cantando

Sempre o sol me queimando

E assim vou me acabando

Quando o tempo avisar

Que eu não posso mais cantar

Sei que vou sentir saudades

Ao lado do meu violão

Da minha mocidade.”

Aqui a morada é um lugar, uma comunidade que evoca, traz sentimentos, lembranças. Neste samba notamos que há a percepção da vida como um ciclo de eterno recomeços em meio às labutas diárias e encontros. As coisas são sinais; as aparências (folhas secas de uma mangueira lembrando a Escola de Samba símbolo do Brasil, por exemplo) revelam significados profundos, histórias, sentimentos, laços.

Por um lado este samba vai mostrar a realidade do sinal, a percepção dessas folhas que caem e que quando pisadas o autor vai tomando contato com as lembranças que fazem-no rememorar fatos da vida. É uma espécie de maravilhamento diante do real que vai gerando uma relação de pertença àquele lugar. Por outro lado, o samba apresenta uma visão que valoriza a sacralidade do lugar, onde a realidade é percebida como provedora.

Escrito por José Eduardo Ferreira Santos.


Prá finalizar, de lambuja mais duas gravações: com Raul de Barros(1974) clique aqui! e com Rosemary(2006) clique aqui!.


quarta-feira, 3 de março de 2010

"Dor de cotovelo"

Dor de cotovelo

Beber pra esquecer é teimosia
Hoje muito whisky, muita alegria,
Amanhã ressaca, saco de gelo
O bar não é doutor que cure a dor de cotovelo

A dor pra curar não tem receita
É corcunda que se deita
Sem achar a posição
E sentir saudade não faz mal
Não é no fundo do copo
Que você vai encontrar sua moral

Beber pra esquecer...


Dor de cotovelo (Joao Roberto Kelly) - Carminha Mascarenhas(1961)
clique aqui!

Dor de cotovelo (Joao Roberto Kelly) - Joao Roberto Kelly(1974)


A CANÇÃO CONTADA

"Viva a Brotolândia" é o álbum de lançamento da carreira da cantora Elis Regina, lançado em 1961 (ela com 16 anos) do seu contrato desde 1959 com a gravadora. A canção "Dor de cotovelo" lá estava clique aqui!.

Extraído do Wikipédia

segunda-feira, 1 de março de 2010

"El rey"

El rey

Eu vi El Rey andar de quatro
de quatro caras diferentes
de quatrocentas celas
cheias de gente

Eu vi El Rey andar de quatro
de quatro patas reluzentes
de quatrocentas mortes...

Eu vi El Rey andar de quatro
de quatro poses atraentes
de quatrocentas velas
feitas duendes


El rey (Gerson Conrad & Joao Ricardo) - Renato Braz(1998)
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El rey (Gerson Conrad & Joao Ricardo) - Secos e Molhados ao vivo(1974)

El rey (Gerson Conrad & Joao Ricardo) - Gerson Conrad & Trupi ao vivo



A CANÇÃO CONTADA

El Rey” (João Ricardo – Gerson Conrad), é uma das menores faixas do disco, tendo apenas um minuto clique aqui!. Novamente o folclore lusitano mostra as suas influências sobre João Ricardo, em uma metáfora quase que em forma de galope medieval. Implicitamente, faz referência a celas cheias e a mortes de centenas. O ano era de 1973, celas, prisões e mortes eram normais nos porões da ditadura. A canção seria uma alegoria àqueles tempos sombrios? Talvez, mas os "Secos & Molhados" eram, supostamente alegres e leves para que se identificasse mensagem assim.

Extraído do site jeocaz.wordpress.com

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

"Direitos exclusivos"

Direitos exclusivos

Quem é você pra ter,
Direitos exclusivos,
Querendo ser feliz,
No meio de infelizes,
Quem brinca com a dor,
É sempre o mais doido,
Não quero teu amor,
Com quem não fez amigos.

Quem é você pra vir,
Zombar de alguém vencido,
Mostrando seu perfil,
Coberto em cicatrizes,
Quem brinca com o mal,
É sempre o mais ferido,
Assuma o seu lugar,
Ou siga o seu caminho.

Eu dificilmente sonho acordada,
Bebo as aflições na mesma taça de alegrias,
Eu ultimamente ando ocupada,
Até pra brincar de esconder com a vida.

Eu dificilmente sonho acordada,
Bebo as aflições na mesma taça de alegrias,
Eu ultimamente ando ocupada,
Até pra brincar de esconder com a vida.


Direitos exclusivos (Claudio Jorge & Ivor Lancellotti) - Angela Maria(1983)
clique aqui!

Direitos exclusivos (Claudio Jorge & Ivor Lancellotti) - Fabyola Sendinni(1983)


A CANÇÃO CONTADA

Gosto muito de uma gravação feita pela Angela Maria de uma canção minha e do Ivor Lancellotti, "Direitos exclusivos". Quando eu tinha meus 11 anos freqüentei o admissão do Colégio Salesiano, lá no Jacarezinho, onde tinha um grupo chamado "Pequenos Cantores da Guanabara", do qual eu fiz parte durante um ano. Uma vez fomos cantar no programa do Paulo Gracindo, lá na Rádio Nacional. Era dia das mães e a emoção foi enorme. Principalmente quando entrou a Angela Maria cantando. Ter sido gravado por ela é um dos presentes que a música me deu.

Cláudio Jorge em entrevista ao site www.alomusica.com.br

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Charles anjo 45"

Charles anjo 45
Oba, oba, oba charles

Como é my friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Charles.........Anjo 45...protetor dos fracos e dos
oprimidos

Robin Hood dos morros..rei da malandragem..um homem de
verdade

Com muita coragem......Só porque, porque, porque
Charles marcou bobeira

Foi tirar férias forçadas..numa colônia penal, oba
Oba, oba, oba charles
Como é my friend Charles

Como vão as coisas Charles?

Charles.........Anjo 45...protetor dos fracos e dos
oprimidos

Mas Deus é justo e verdadeiro e antes de acabar as
férias nosso Charles vai voltar

Para alegria geral, antecipando o carnaval, vai ter
batucada, missa em ação de graças
Whisky com feijoada e outras milongas m
Oba!....oba, oba, oba Charles

Como é my friend Charles

Como vão as coisas Charles?

Charles.........Anjo 45...protetor dos fracos e dos
oprimidos



Mas Deus é justo e verdadeiro e antes de acabar as
férias nosso Charles vai voltar

Para alegria geral, antecipando o carnaval,
vai ter batucada, missa em ação de graças
Whisky com feijoada e outras milongas mais

Oba!....oba, oba, oba Charles

Como é my friend Charles



Charles anjo 45 (Jorge Ben) - Gal Costa ao vivo(1971)
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Charles anjo 45 (Jorge Ben) - Jorge Ben ao vivo(1969)

Charles anjo 45 (Jorge Ben) - Caetano Veloso & Jorge Ben(1969)



A CANÇÃO CONTADA

Era 1969 e a ditadura ia muito bem, obrigada, no comando do Brasil. Reprimia qualquer oposição. Torturava gente nas celas de delegacia, matava guerrilheiros, sabotava ações. E pentelhava os artistas que era uma beleza. Caetano Veloso, por exemplo, teve mais problemas ainda quando resolveu gravar “Charles Anjo 45″.


A letra falava de um bandido da vizinhança onde Jorge morava. Claro que eram os idos de 1969 e os comandantes dos morros talvez tivessem um quê de inocência. De qualquer forma, para quem pensava que era de hoje que a ausência do Estado tornava possível a ascensão de um traficante como benfeitor social, aí está “Charles Anjo 45″, lançada em 1969. Ou seja: nesse aspecto, o negócio tá ruim faz tempo…


O que, é claro, não tira a beleza da música. “Charles, anjo 45" foi feita e inspirada no malandro carioca. E, além de tudo, Charles, anjo 45 porque ele usava uma 45 [tipo de arma] e ele era um anjo, porque quando ele chegava tudo ficava bem. Tudo se transformava”, disse Jorge Benjor em uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura.


Claro que a ditadura encrespou. Viu na letra mais uma apologia ao banditismo. Como se já não bastasse o frisson que o artista plástico Hélio Oiticica havia causado com sua estampa de uma foto de jornal que mostrava um traficante famoso à época, o Cara de Cavalo, morto pela polícia — e legendada pelo artista com a provocativa frase “Seja marginal, seja herói”.


E, se a apologia não fosse ao banditismo, a letra de “Charles Anjo 45″ era ainda pior: devia estar fazendo referências aos guerrilheiros. A Lamarca, ou a Che Guevara. De qualquer forma, acharam que não pegava bem sair por aí cantando um marginal. Não demorou para que os militares chamassem todo mundo para se explicar. Jorge não teve maiores problemas porque se posicionava como um artista apolítico desde o começo da carreira. Já Caetano… bom, logo Caetano seria sutilmente induzido a sair do país, junto com seu amigo Gilberto Gil.


Mas isso já é outra história.

Extraído do blog “Multidisciplinar”, de Clarissa Passos

Não. A música "Charles Anjo 45", de Jorge Ben, não é uma homenagem póstuma ao guerrilheiro escondido nos morros do Rio de Janeiro. Porque ele está bem vivo. Sobreviveu às perseguições e hoje leva uma vida pacata em Porto Alegre. Seu verdadeiro nome é Avelino Capitani. No dia 18 de agosto ele completou 59 anos (a vida que levou se reflete nos traços do rosto, já que aparenta muito mais). A sala da casa onde mora - uma doação de familiares - quase não tem móveis. Apenas dois sofás e uma mesinha para a TV. Foi decorada com balões para celebrar a data. Uma exigência que a filha Juliana, de cinco anos, fez à mãe, Teresa, mulher de Capitani. O presente? O que ele mais queria era ser incluído no rol dos anistiados, que completaram 20 anos de retomada dos direitos civis e políticos no final de agosto. Ele e outros 400 companheiros ainda não sabem o que é isso.

A história do marinheiro Avelino começou em 1960, no início de uma década polarizada por duas correntes: a esquerda nacionalista e a direita conservadora. Essas eram as expressões da época. Gaúcho de Lajeado, Capitani ingressou na Marinha aos 20 anos. O colono do interior foi direto para o Rio de Janeiro. Dois anos depois, era criada a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais que tinha como reivindicações o direito ao casamento, o fim do livro de castigos, o direito a andar como civil em casa. A Marinha se negou a conceder esses direitos sociais e, sem muita saída, a Associação acabou se alinhando às chamadas forças nacionalistas.

O que veio depois é uma história pouco narrada nos livros oficiais, mas ainda presente na memória de seus personagens. “À tardinha, no dia posteior ao golpe militar, dez mil soldados estão a postos para atacar três mil marinheiros, aquartelados, com tanques e canhões; se aproximando do Rio, mais 50 mil soldados vindos de São Paulo”, recorda. Capitani estava no comando do movimento e viu homens chorando com a iminência da morte.

Como revanche à ousadia dos marinheiros, veio a perseguição às lideranças do movimento. Ao todo, 1.509 homens foram expulsos e processados; 400 foram condenados. A soma total das penalidades chega a 13 séculos de prisão, 1.300 anos, “a maior pena coletiva da história do Brasil”. A Marinha, além disso, mandou ofício circular para todas as empresas brasileiras proibindo dar oportunidade de emprego aos condenados. Sem alternativa de vida, muitos se refugiaram no interior, outros foram viver de biscate. E uma outra parte, onde Capitani se inclui, caiu na clandestinidade. Capitani foi preso, fugiu, se asilou no Uruguai e fez treinamento de guerra em Cuba. De volta ao Brasil, clandestino, participou da Guerrilha de Caparaó - o primeiro foco guerrilheiro no Brasil. Foi mais ou menos nessa época que surgiu o codinome que o acompanhou por um bom tempo de sua vida: "Charles Anjo 45".

O nome de guerra era Charles porque ele era loiro, parecendo um europeu. Anjo porque numa das penitenciárias foi atendido por um grupo de estagiárias de assistência social que o apelidaram de anjo loiro. E 45... bem, porque na guerrilha ele usava uma pistola 45.

Quando foi ferido, o anjo loiro subiu o morro para escapar do cerco. Na fuga, foi ajudado por moradores da favela, mas deixou um rastro de sangue. “Como eu desapareci, pensaram que eu estava morto. Daí o Jorge Ben fez a música”, relata. Capitani viveu clandestinamente até a promulgação da lei da anistia, em 28 de agosto de 1979. Só que a lei não o beneficiou.

Na verdade, Avelino Capitani não foi anistiado até hoje. “A Marinha sempre negou anistia aos marinheiros. Ela eternamente recorre na Justiça de um processo que ainda está em andamento”, reclama. Capitani foi anistiado dos crimes políticos, mas pleiteia seus direitos profissionais e a reintegração às suas funções. “Todos os políticos e comandantes estão anistiados; os marinheiros condenados, não. Os torturadores, inclusive os meus, estão anistiados; eu, torturado, não”. Em virtude disso, Capitani nunca conseguiu se aposentar e vive de trabalhos esporádicos.

Dos 1.509 marinheiros expulsos e condenados, cerca de 800 pediram incursão na lei da anistia (os outros morreram ou estão desaparecidos). A metade dos 800 conseguiu ser anistiada, outra metade ainda luta na Justiça. “Não sei se vou conseguir. Só faltam os marinheiros serem anistiados, nós somos perseguidos políticos até hoje”.

Márcia Camarano no site www.sinpro-rs.org.br

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Brejeiro"

Brejeiro (Ernesto Nazareth) - Guarana e sua Orquestra(1956)
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Brejeiro (Ernesto Nazareth) - Luiz Eca(1976)

Brejeiro (Ernesto Nazareth) - Yamandu Costa ao vivo(2007)



A CANÇÃO CONTADA

"Brejeiro", composto em 1893, uma de suas composições mais famosas, é considerado o marco do tango brasileiro. Em razão de dificuldades financeiras, Nazareth vendeu os direitos dessa peça para a Editora Fontes e Cia. por 50.000 réis, o qual chegou a ser gravado pela banda da Guarda Republicana de Paris. Embora tenha composto obras as quais denominou de tango-brasileiro, Nazareth fazia uma diferenciação entre o choro e o tango-brasileiro, esta por ele considerada música pura.

Extraído do site musicabrasileira.org

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"A preta do acaraje"

A preta do acarajé

DC - Dez horas da noite, na rua deserta

a preta mercando parece um lamento



CM - Iê abará



DC - Na sua gamela tem molho cheiroso

pimenta da Costa, tem acarajé



CM - Ô acarajé ecó olalai ô ô

Vem benzê ê ê



DC - Todo mundo gosta de acarajé (bis)



CM - Mas o trabalho que dá p'rá fazê é que é (bis)



DC - Todo mundo gosta de acarajé (bis)

Todo mundo gosta de abará (bis)



CM - Mas ninguém qué sabê o trabalho que dá

Ninguém qué sabê o trabalho que dá



DC - Todo mundo gosta de abará (bis)

Todo mundo gosta de acarajé



CM - Iê abará



Coro - Iê abará



DC - Dez horas da noite, na rua deserta

quanto mais distante, mais triste o lamento



CM - O acarajé ecó olalai ô ô

Vem benzê ê ê, tá quentinho



Coro - Todo mundo gosta de acarajé!



A preta do acaraje (Dorival Caymmi) - Dorival Caymmi(1985)
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A preta do acaraje (Dorival Caymmi) - Gal Costa(1979)

A preta do acaraje (Dorival Caymmi) - Na Ozzetti ao vivo(2009)



A CANÇÃO CONTADA

Iguaria que melhor representa a culinária africana no Brasil, o acarajé é feito com massa de feijão fradinho, frito em azeite de dendê, e recheado com vatapá, vinagrete, camarões secos, e pimenta. A origem do nome vem do akará, alimento sagrado oferecido a Iansã – deusa africana que controla o fogo, os ventos e as tempestades.

Desde 2005, a iguaria é considerada patrimônio imaterial pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Na música “A Preta do acarajé”, o compositor baiano Dorival Caymmi, imortalizou a figura da baiana cantando durante o preparo do quitute.


“A preta mercando
Parece um lamento
Ê o abará
Na sua gamela
Tem molho e cheiroso
Pimenta da costa
Tem acarajé
Ô acarajé é cor
Ô la lá io
Vem benzer
Tá quentinho”.

Extraído do site www.brasilsabor.com.br

Chegando ao Rio de Janeiro em 1938, Caymmi não demorou, foi contratado pela Rádio Tupi, Mayrink Veiga e Rádio Transmissora, onde apresentou a canção "O que é que a baiana tem?", gravada em fevereiro de 1939 pela Odeon, por Caymmi e Cármen Miranda, juntamente com "A preta do acarajé".

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"Valsinha"

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


Valsinha (Vinicius & Chico Buarque) - Arthur Moreira Lima(1984)




Valsinha (Vinicius & Chico Buarque) - Monica Salmaso(1999)

Valsinha (Vinicius & Chico Buarque) - Thais Motta & Marvio Ciribelli ao vivo(2009)




A CANÇÃO CONTADA

Essa peça de Chico e Vinícius, composta na década de 70, foi uma dedicatória ao movimento hippie que vinha ganhando força. Os hippies daquela época pregavam o amor, a fraternidade, a liberdade de ação em pleno época de forte repressão, viviam em grupos, usavam e abusavam do livre sexo e tudo mais.

Dá pra perceber direitinho essa alusão ao movimento quando a música nos apresenta um homem que chega diferente, que olha diferente, que pára de maldizer a vida, que dança, que ama.

A princípio a música iria levar o nome de "Valsa hippie", por idéia de Vinícius. Chico até aprovou de início mas logo retrucou, alegando que o movimento vinha virando 'modinha'. Então, Vinícius demasiadamente Vinícius, como tem a mania de colocar tudo no diminutivo... "Tá, Valsinha, então".

Eu achei no site oficial dele duas cartas de Vinícius prá Chico - e vice versa - nas quais eles discutem a composição da "Valsinha". Emocionante ler esse diálogo.

Notas sobre Valsinha
Por Vinicius de Moraes

Mar del Plata, 24/01/71

Chiquérrimo:

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que v. partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a v., mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo me disse que Sérgio morava em Buri 11, e lá foi a carta para Buri 11.

Mas como v. me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se v. concorda com as modificações feitas. Claro que a letra é sua, eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor estas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa Hippie, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que voce acha? O pessoal aqui no princípio estranhou um pouco, mas depois se amarrou à idéia. Escreva logo, dizendo o que v. achou.

VALSA HIPPIE

Um- dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar/
Olhou-a de um modo mais quente do que comumente costumava olhar/
E não falou mal da poesia como era mania sua de falar/
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: /Vamos nos amar
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços coma a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.

Vinicius de Moraes

Resposta de Chico:

Por Chico Buarque
Rio, 2 de fevereiro (sem o ano)

"Caro Poeta,

Recebi as suas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o Apesar de Você. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gessy, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

Valsa Hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí.

Valsa Hippie, ligado à filosofia hippie como você o ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.

Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da t... final. "pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que "pra seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens. Vamos lá:

- Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. E gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ó poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisa estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista É por isso que estou puxando a sardinha para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, também dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

- Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

- A terceira é que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz "e cheio de ternura e graça" em vez de "e foram-se cheios de graça". Agora estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você me disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente. Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, porque deu bolo como o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho solando Primavera. Dê um abraço na Gessy, um p... no Toquinho e peça à Silvina para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

Chico Buarque.
Extraído do blog www.ame-o-poema.blogspot.com, de Othon César
De quebra, mais duas gravações: com Chico Buarque clique aqui! e com Paulo Gracindo clique aqui!